quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Jader Pires


A dor nem era tanto...


A dor nem era tanto no cu. Claro que ter um consolo volumoso arrombando as pregas, sem que você tenha qualquer tipo de tesão no rabo, deve dar uma dor do cacete. Mas a dor que ele sentiu era muito maior e difícil de controlar. Nada pode doer mais num homem do que se ver completamente indefeso perante outro homem mais forte.
A fraqueza, a negação. O cheiro de cimento em pó e pinho de banheiro lhe chegava às narinas, mas essas não avisavam o cérebro completamente cheio de rancor e frustração.
Ele queria dizer “não” diversas vezes, mas cada cerrar de testa era recebido com um tapinha na cara, daqueles que se dá em putinha que finge não querer dar pro cliente. Era uma humilhação sem igual. Três homens, todos maiores que ele, adentraram ao carro no estacionamento do escritório e levaram-no sei lá pra onde. Tudo na base do tapa, dos gritos e do cano gelado atrás da orelha.
Chamavam ele de viadinho, de bichinha. Quanto mais eles xingavam, mais ele ficava puto. Quanto mais ele se emputecia, mais as lágrimas teimavam em cair. Mais lágrimas, mais xingamentos. Mais raiva.
No cativeiro, eles bebiam enquanto o sequestrado tinha a boca amordaçada, o terno sujo e a bunda no chão frio. A cachaça começava a fazer efeito e as ligações pareciam infrutíferas. Eles ligavam pro escritório, pra esposa, pros filhos. Ninguém atendia. Eles bradavam maldições pro sequestrado e pros parentes. A negociação era completamente inexistente até aquele momento. Na mesa, uma piroca de borracha, verde luminoso, jazia inerte aos barulhos e socos na madeira toda manchada de marcas de copo.

A cachaça e a maldade ordenaram e, num surto de agressão gratuita, arrancaram as calças caras do velho, ainda atordoado. Esse daí, ao realizar a putaria iminente, berrava todas suas forças, urros guturais que se amontoavam na boca e brecavam na mordaça, feito exército a se espremer na muralha depois de dias de sítio.
Sem culpa, sem chance, enrabaram-lhe com o consolo, dois a segurar as pernas e um a foder a bunda do pobre homem que sentia cada prega cuspindo sangue estupidamente, sem saber como se comportar a ter um falo estuprando seu cu. A dor no rabo era forte, quase insuportável, mas chegava a ser uma distração perto da humilhação e incapacidade que ele sentia dentro de si. Um trauma pra vida toda.
A cena era forte e a menina não sabia se ficava com medo ou tesão. Estava sozinha em casa, quase madrugada. Os pais estavam num jantar pra comemorar alguma coisa. Isso na cabeça dela porque, na verdade, eles saíam pra se livrar da filha chata. Não pelo caráter da garota, mas pela idade com humores intermitentes.
Filme em canal à cabo não censura cenas fortes e ela ficou toda tesa ao se colocar no lugar da personagem, impotente e tomando no cu. A cena a chocava. A imaginação a deixava toda úmida debaixo do shortinho de pijama. Atormentada, a garota desligou a televisão e foi se deitar. Na cama, não conseguia parar de pensar e sua bundinha se contraía involuntariamente, enquanto ela praguejava o pecado que era o crime, o sequestro, a privação da liberdade alheia, a humilhação pela humilhação, o sexo anal. Ficava, ao mesmo tempo, roçando a mão nas coxas e julgando mulheres que se abriam pra tal libertinagem, que se atreviam a dar o cu. Quanto mais pensava, mais molhada ficava.
Botou o dedo no shortinho, bem no meio das pernas, e sentiu a quentura. Com a mesma mão, apertou a bunda. Abriu com o dedão e o anelar e o dedo do meio fez o resto. Era linda a cena. Uma menina, no auge do tesão, travando uma luta épica entre a culpa e a entrega. Enquanto meditava sobre a paz mundial e a desnecessidade do sexo sujo, ela dava uma bela massageada com o dedo. Ameaçava adentrar, mas era só parte da massagem. Quase foi à loucura. Dormiu sem gozar, com a bundinha latejando.
Pela manhã, já na escola, só abriu a boca já depois do intervalo, pra dar um esporro sem precedentes no garoto que sentava atrás dela. O fedelho, todo dono de si, contava aos quatro ventos do fundão da sala seus feitos eróticos, suas escapadas sexuais, as tias que ele comia na rua em que morava, que viviam chamando ele pra trocar a lâmpada e, quando viam o volume do seu pau sob a calça de moletom (que, claro, sempre estava sem cuecas), não se aguentavam e se insinuavam até ele fodê-las. “Coroas safadas. Essas são as melhores”.
Já estava de saco cheio de tanto ouvir sacanagens inventadas. O garoto, por qualquer acaso de qualquer destino, sussurrou sobre a punheta que bateu pensando na professora, uma ruiva gostosa que dava aulas de biologia. Contava o menino que imaginou a “prô” chupando-o ainda de óculos, montando na mesa e ficando de quatro (“como se ele tivesse altura pra comer a professora de quatro na mesa da escola”, contrapôs o pensamento da menina).
Um raio transpassou todo o corpo dela quando o pivete relatou que, em sua imaginação, a professora massageava o cu e pedia pra ele fodê-la por trás. No impulso, a menina se virou e berrou para os quatro ventos da escola inteira. Chamou  o menor de filho-da-puta-mentiroso-escroto-dos-infernos. Humilhou o garoto na frente da classe toda, assim como viu na humilhação no filme, mas com uma rola intangível, feita de palavras duras e saliva que saía de sua boca em forma de jatos.
Disse que ele não tinha a capacidade de comer nenhuma mulher nesse mundo, que todas elas sentiriam o mesmo nojo que ela sentia naquele momento. Declarou, pra quem quisesse ouvir, que tinha toda a certeza que o contador de histórias devia ter um pau minúsculo, e que nem fazia ideia de como usá-lo pra comer alguma mulher. Desafiou o pobre coitado a botar o pintinho pra fora e mostrar do que ele era feito. A escola toda ouviu o estupro moral.
Naquela tarde, o garoto foi andando pra casa. Não conseguia prestar atenção na música que batia forte nos fones de ouvido. Não enxergava as cores, não prestava atenção no caminho. Se arrastava como um fantasma que ainda não descobriu a própria morte. Era mais uma frustração em sua vida.
Chegando em casa, a mesma rotina de sempre. Sua mãe estava lá, como em todos os outros dias. A mulher recebia uma pensão do ex-marido e não precisava trabalhar. Estava na sala de shortinho e sem nada por cima, com os seios batendo nos joelhos de algum “amigo” enquanto lhe chupava a rola. O menino cansou de contar quantas vezes viu cena igual.

Sua mãe adorava, mais que tudo nessa vida, chupar uma rola. Não que ele tivesse deduzido isso, mas ouvira da boca da própria, tagarelando com alguma amiga em algum dia no passado. “Nada nesse mundo me completa mais que chupar uma bela rola. Nada mesmo”. O garoto botou na cabeça que ele estava no pacote e era menos amado que um boquete no meio da tarde. Ligou pro pai depois de largar a mochila no quarto, mas falou com a secretária. O pai estava fora do país. De novo.
Viajar o mundo era seu sonho, mas não sabia que viajar a trabalho era tão desgastante. Suas “grandes aventuras em busca de novos negócios” virou só bate-e-volta para assinar contratos. Amava demais o filho, mas a imagem da mãe vagabunda o transtornava demais para ter um contato diário.
Mandava o motorista buscá-lo nos finais de semana, quando não estava viajando. Anos antes, era apaixonado pela garota que começou a namorar ainda nos anos de colégio. A idolatrava e quase quis arrancar os próprios olhos quando chegou em casa e a viu chupando um amigo em comum, também da época da escola. Ela alegou que sempre teve o mesmo pau e que precisava conhecer outros. Nunca mais parou de chupar rolas desconhecidas. Ele enricou e pagava a pensão pro filho que era inteligente, mas contava muita mentira.
Não passava pela cabeça que o garoto tentava maquiar toda a sua realidade depressiva. Claro  que não, pois nem enxergava a sua própria maquiagem da realidade. Enriqueceu e escolheu um tipo de trabalho que necessitava de viagens constantes pra não bater de frente com a figura de seu próprio pai, o homem mais arrogante que ele já conheceu. Duro feito pedra, egocêntrico como um homem de sucesso acha que deve ser, seu mundo sempre esteve em primeiro, segundo e terceiro lugar.
Das pouquíssimas coisas boas que consegue se lembrar, está um dia em que o velho o levou ao zoológico. Mesmo falando ao telefone o tempo todo, conseguia se sentir em êxtase de desfilar entre outras crianças de mãos dadas com um homem que emanava poder. Mas ainda garoto, o pai ficou mais e mais nojento e recluso.
Ainda adolescente, abdicou de tentar admirar aos olhos do pai e foi tocar sua vida, sem saber que, quando mais velho, se tornaria um rascunho futurístico do próprio progenitor. De quando em quando, uma culpa lhe batia e ligava pro velho, de qualquer país que estivesse. Era sempre o mesmo papo seco. Um “oi”, algo sobre vinhos, as velhas reclamações sobre os chineses ou os soviéticos (na cabeça dele, a Rússia sempre seria soviética) e sempre era interrompido por alguma desculpa do pai que precisava desligar, sempre de modo seco.
O que ele não sabia é que, quando ainda era uma criança incapaz de juntar lembranças na memória, seu pai fora sequestrado e, antes de ser libertado, sofrera algum tipo de trauma que o transformou para todo o sempre. Tudo o que ele sabia era que o pai odiava, acima de tudo nesse mundo, a cor verde.