quarta-feira, 1 de agosto de 2012

REVELAÇÃO


Desde que me entendo por vela
estou procurando o cara que risca os fósforos.
Eis o fogo de minha angustia, 
fogo que me consome dia após dia. 
Dizem que minha busca é benéfica aos que me rodeiam, 
que gera luz e calor no ambiente. 
Não me queimo por isto. 
Foda-se a luz! Foda-se o ambiente!
Fodam-se os que amam e os que odeiam minha combustão! 
Não me queimo por ninguém. 
Me queimo de mim e por mim mesmo. 
Me queimo de desejo sem remédio. 

Ardo na procura do cara que risca os fósforos. 
Ele espera feito areia numa ampulheta de grãos de fogo, 
que me leva, que me larva, que me livra, mas que não me dá a medida. 
Qual o tamanho do cara que risca os fósforos? 

Talvez amanhã. Sempre amanhã. Nunca e sempre. 
Quando vou encontrar o cara que risca os fósforos? 
No meu centro tem um umbigo de pano.

Meu mundo começa e termina nele. 
Antes dele, tudo. Depois dele, nada. 
Será que o cara que risca os fósforos está depois do meu umbigo? 
O que será que será? Efeito de parafina que não sacia.

Me lembro de muitos dias de fogo. 
Não sei quanto tempo, não sei até quando. 
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo, canta a vela preta. 
Dizem que só quem sabe o destino do velório é o cara que risca os fósforos. 

Inferno é saber apenas por não saber. 
Peço que o cara que risca os fósforos apareça com seus fósforos ou sem eles. 

Fogo mundo. Fogo pião. 
Não quero perdão que nem dez mandamentos vão conciliar. 
Velar um corpo que Prometeu voltar sem corpo. Mão me conformo com a forma. Todos santos de barro e imaginários estão sendo consumidos pela mesma pergunta que me consome agora: 
Cadê o cara que risca os fósforos?
Desde que me entendo por vela estou procurando o cara que risca os fósforos. 

Por que será? Pra onde vai a vela quando a vela acaba?
Tenho cá pra mim que agora sim me foi enfim revelado.
Mentira.



Marcelo Ferrari,
Mineiro por opção
humano por burrice.