quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

FUNDO

Nem o olho no fundo do céu
Nem a estrela no fundo do mar
Nem o ouro na borda do mel poderá
Revelar os segredos de Deus
Ocultar as notícias que há
Sobre os lábios, por baixo dos véus, pelo ar

Nem a imagem, a idéia-pincel
Que melodicamente se dá
Em palavras exatas na voz de quem
Sabe cantar

Nem o não do silêncio do breu
Nem o sim da explosão estelar
Nem o branco do puro papel
Chega lá


Caetano veloso



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

IMPERMANÊNCIA



O desejo da posse
é uma agitação que inquieta a alma.
é um sentir-se incompleto e subestimado
e depois preencher com
coisas que vão se estragando.

É se entregar a inútil ilusão
de sonhar que algo lhe pertence
num mundo em que nada
pertence a ninguém definitivamente.
Tudo verdadeiramente
pertence a impermanência.

Aquilo que não temos…
não precisamos.
O que nos falta…
não merecemos.
O que somos…
já nos basta.


Marcos Tavares


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

TESTEMUNHA



Algo respira em mim,
em ti.
em tudo
e nada diz.

se cala, observa-se
se torna e escapa,
evapora-se...

não é alma,
não aflora,
não  tem rastros
nem forma

estorva quem olha
engana  quem indaga
...absorve-se.


Marcos tavares


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS

Eu mesma pedi, esta caixa de madeira
branca e quadrada como uma cadeira, pesada demais.
Diria que é o esquife de um anão
ou de um bebê quadrado
não fosse o rumor que vem de dentro.

Está fechada agora, é perigosa.
Devo zelar por ela a noite inteira
e não posso me afastar.
Não há saída, é impossível ver o que há nela.
Só uma pequena tela, sem janelas.

Espio pela fresta.
Tudo escuro, escuro,
pelo enxame zangado de mãos africanas
miúdas, prensadas para exportação,
negro no negro, escalando com ira.

Soltá-las, quem dera?
O zumbido é o que mais apavora,
as sílabas incompreensíveis,
são como um turba romana,
não são nada sozinhas, mas juntas, meu deus!

Ouço ansiosa esse latim furioso.
Não sou um César.
Só encomendei uma caixa de maníacas.
Posso devolvê-las.
Ou deixá-las morrer, sou a dona, não preciso alimentá-las.

Imagino quanta fome sentem.
Imagino se me esquecessem
se eu abrisse a tampa e recuasse e virasse árvore.
Há um laburno, com suas colunas louras,
e anáguas de cereja.

Podiam de repente me ignorar
em meu véu funerário, em meu vestido lunar.
Não sou fonte de mel.
Por que dão voltas em mim?
Amanhã serei o doce Deus, vou soltá-las enfim.

A caixa é apenas temporária. 


SYLVIA PLATH

(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça) 


domingo, 10 de novembro de 2013

LINGUAGEM

Somos todos
versos de uma poesia.
Alguns com vírgulas demais, 
outros com muitos dois pontos.
Uns que usam tanta exclamação
que vivem até entre aspas.

Alguns não respeitam maiúsculas,
enquanto outros ficam
apenas entre parênteses.
Tantos escrevem apenas de si,
que o texto torna-se enfadonho.

Por ironia da linguagem 
é preciso ter ponto final,
mas tem sempre alguém com reticências
que nos dá vontade de ler
seu próximo capitulo.


Marcos tavares

sábado, 9 de novembro de 2013

ASTRONAUTAS CAINDO AOS PEDAÇOS




Assim são as pessoas, umas sólidas, concretas de aço, outras estranhas, infinitas e abstratas. As pessoas são paisagens, cartão de visita, as pessoas são chamadas não atendidas, as pessoas são gritadas, anunciadas pelo nome sobrenome, as pessoas são palavras esquecidas. As pessoas têm papo, cabeça ombro e membros, sentimentos no anonimato, as pessoas são potências e atos. As pessoas têm coisas, as coisas têm as pessoas, são textos caligrafias cadernos encadernados no segundo, mundo particular em partículas criptografadas, um quarto da metade industrializada condicionada. As pessoas estão na terra, estão no terraço, as pessoas estão no mundo da lua, astronautas caindo aos pedaços.


Claudio Castoriadis   
http://claudiocastoriadis.blogspot.com.br/

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

domingo, 3 de novembro de 2013

SURTO DERRADEIRO


Em minhas mãos dorme esta serpente,
que acorda esfomeada,
entorpecida pelo meu mau hálito
se enfraquecendo a cada  instante

Quando triste se contorce,
amarrada ao poço profundo,
sem abrigos à tempestades,
exposta  à  germes  e escuridão

Ás vezes me implora liberdade,
com um olhar  terno e  infantil,
parece  desconhecer o seu destino:
Me domesticar  com sua  fragilidade.

Posso esmagar a sua cabeça,
num surto derradeiro,
não sentir mais a sua ameaça
num dia de sol qualquer


Marcos tavares 

UMA NOVA FESTA

Durante mais de dezesseis anos estive compartilhando a maioria dos meus momentos com uma grande pessoa. Enfrentamos tantas coisas difíceis e duras nesse tempo, mas juntos com nossas forças conseguimos superar. Tive comigo uma grande guerreira que vai sempre fazer parte da minha história, não há o que julgar, remediar ou acusar a ninguém, somos como todo mundo, humanos feito de carne e osso, onde um coração bate e decide coisas imprevisíveis.
Erramos muitas vezes um com o outro, mas aprendemos a nos perdoar.
Ainda sabíamos rir um do outro, dormir abraçados e andar de mãos dadas.
Mas a vida, que é selvagem e dinâmica pede que não mais caminhemos juntos.
Não conhecemos o que a vida nos reserva, nem os planos que serão traçados para cada um, mas viver é um eterno vir a ser, temos que deixar o novo entrar, pois se o impedirmos ele rasga a nossa alma, sem se importar com o que se sente ou ao que se está apegado.
É importante sabermos limpar os cantos da sala e tirar o lodo que vai ficando ali, o mesmo se deve fazer com o coração da gente, as vezes. Sutilmente dar-lhe novos ares ou novas pessoas que ali saibam ficar por algum tempo.
Todos nós estamos vivendo em mundo descartável de coisas que se sucedem constantemente, as relações das pessoas também estão assim. Não são as pessoas que perderam o compromisso de manter de pé suas juras de amor ou seus sonhos, é só o mundo querendo que você troque de roupa para uma nova festa.
Tenho certeza que será impossível não chorar, não sentir saudades e as vezes até encher um pouco a cara, mas, a maior das certezas é que não deixaremos morrer nossa história e aquilo que dói agora, um dia não mais doerá. Todos estes sentimentos confusos que vem fazer alvoroço, rasgando a alma e nos tirando o chão, um dia estarão assentados e serão apenas um grande e enorme carinho.

Vai com Deus, Patty !

Marcos tavares


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PREFIRO VOAR

Não ando de trem,
os trilhos embaçam minha vista,
olho pela janela, fico tonto,
abro um livro, as palavras ficam pulando,
tampo os ouvidos,
parece que estou caindo,
puxo conversa,
o vagão tá vazio,
pergunto pro lanterninha,
ele também não sabe
que filme está passando,
Cruel...
-Prefiro voar.



José Expedito dos Santos

terça-feira, 29 de outubro de 2013

MULHER RESIGNADA


A mulher resignada sob a ponte
vê seus filhos brincarem
por entre carros e cachorros.
Ensaia um sorriso de cárie,
num gole de aguardente e choro.

Seus filhos dormem maltrapilhos,
entre buzinas e sonhos,
dentro de um balaio gasto,
aos cuidados da cidade transeunte
e seu desmaio vasto.

Seu homem cambaleante,
chega à tarde entre fumaças.
Seus dedos fedem lixo, cachaça.
Se sacia nos seus trapos, na sujeira.
Partilha dos seus bolsos as migalhas

A mulher resignada sob o céu,
não lembra mais os nomes dos filhos
nem seus sexos, suas doenças.
Só a parede que lhe ampara
sabe como são suas manhãs
e porque canta. 


Marcos tavares 


MULHERES

Marcos tavares

domingo, 27 de outubro de 2013

SURPRESAS DA VIDA

   
                                                          Marcos Tavares

domingo, 22 de setembro de 2013

MUNDO MISERÁVEL


Mundo miserável...                                                     
Eu prefiro as putas
do que as mulheres que fodem sem verdade.
Eu prefiro as ruas
do que as casas que me abrigam sem calor.
Eu prefiro a fome
do que a mesa que só sacia minha avareza.
Eu prefiro a morte
do que a vida segregando-me em trincheiras.
Eu prefiro a traição
do que um olhar desprezível.
Eu prefiro mesas de botequins com marginais
do que jantares brindando a opulência.
Prefiro lanterna nas mãos pra me guiar passo a passo,
do que os faróis das pessoas que impõem suas receitas.
Eu prefiro os cortes de uma faca
do que a ferida de um amor que ainda sangra.
Eu prefiro as mãos que me asfixiam
do que as que me afagam com mentiras.

Mundo miserável...
Estou bem no meu jardim
com minhas ervas daninhas.
Não espero medalhas, enfeites,
porra nenhuma!
Deixem-me viver à minha maneira,
morrer se for preciso,
com os pergaminhos
guardados no coração. 

Prefiro as punhetas das manhãs
do que as orações da noite.
Prefiro a cidade enfurecida,
que a calmaria da madrugada.

Não sei viver no silencio, 
debruçado sobre mágoas. 
Não quero ser mais um tolo
que olha o mundo e enxerga
um mundo que não existe,
mas sim, que apenas interpreta.
Quando eu olho o mundo
vejo uma dança cósmica e selvagem.
Moléculas e átomos desconexos,
bêbados a bailar.    

Marcos tavares 




 

sábado, 21 de setembro de 2013

INBOX


Ele me chama de Mulher e me convida prum Whisky. 
Diz:
- Vamos, eu te busco e tal, por onde você anda? Onde você mora?
Não sei onde moro, amor. Deveria morar na minha casa, mas lá é o lugar aonde eu menos moro e, 
por vezes me pego pensando sobre o quanto eu seria Mais-eu se morasse Mais-só.
Ah, o sonho da Liberdade! Essa mistura maluca de coca-cola com sucrilhos.
Sempre tão impossível e tentador. Bonito e interessante.
Meus lençóis, meu sabonete. Como eu queria uma privada só pra mim. Já diz o nome, P r i v a d a: não é coisa pra se dividir com ninguém.
Juro que daria tudo pra dormir no sofá e não ter alguém pra me tirar dali. dizer pra eu ir pra cama, desligar a tv, escovar o dente. Tenho 25 anos, porra, e minha família não me respeita.
Na minha casa eu me masturbaria até na cozinha e quase que já me vejo tomando um café na varanda do meu futuro apartamento.
Meu canto seria uma constante de mim. Lá não entraria ninguém que não fosse do meu agrado. Mulheres dormiriam na sala, Homens tomariam banho, poucos cagariam, muitos comeriam e minha parede seria menta.
Eu teria uma vitrola e um fogão de 65, tapetinhos cor de creme, E cortinas... muitas cortinas, pra praticar meu esporte preferido, o Isolamento.
A cozinha teria quadros e a sala nada, acho! só a vivência dos amigos e amantes.
Não, ninguém mandaria em mim.
Eles nem teriam esse direito. A sagrada boca da minha mãe se calaria, enfim.
Tudo dependeria apenas de mim.
Que tesão, meu deus eu quero muito, mas sou artista e por minhas poesias ninguém paga um puto.
Dizem:
- Do caralho, Aline, do caralho!
Mas não é de caralho que se vive um homem. Ou talvez seja.
O fato é que não pago nem as contas do mercado. Moro com gente que me abafa, que não me assanha nem nas cores, em nos volumes.
Tudo é emprestado. Atravancado, até a geladeira e o papel higiênico. A toalha de banho, o cheiro.
Outro dia mesmo um cara me disse:
- Pô, gata, vamos fazer umas fotos? No estilo sexy intimista, bora?
Eu:
- Não sei não, hein. Não tenho corpo pra isso, mas tenho uma imagem a zelar. Como é que fica minha vida acadêmica? Meus alunos vão querer me comer. E outra, onde faríamos essas fotos?
- Na tua casa, ué. Porque não?
Porque não?!
Tu não entendeu porra nenhuma do que eu disse aí em cima, né, irmão?


Aline Vianna

texto original aqui:


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

PRÓXIMA ESTAÇÃO


Chegarias, em vestes invisíveis,
tomada de extintas impressões minhas.
O tato do meu orgasmo delirante
despedaçado,

Girarias teu corpo em rodas de fogueira
á lampejar-se
á determinar-se
a mais bela dançarina.

Deixarias em minhas mãos
- a suspirar cortes
a rosa mutilada
do teu amor,
amanhecido.

Partirias tão sutil, camuflada
...em ermos horizontes
-sem saber do meu amor,
em palmilhas desconcertantes
-intraduzíveis.

Deixaria apenas, em meu peito
versos pisoteados,
meu violão mudo de poemas repelidos,
meu coração nulo, de pequenos universos,
-sem risco de se expandir.


Marcos tavares 




quinta-feira, 22 de agosto de 2013

ALÉM DO MEU PRANTO

Pra te esquecer, eu…
e esta madrugada aflita
neste momento imenso
que é tanto,
nesta lonjura de tudo
que é vida
e que tira
das estrelas
seu encanto,
eu me juntei
em vísceras e caminhei.
Incerto ainda, de não ter
nas mãos o que ofertar
além do meu pranto.

Vida que trafego insone
dos seus sonhos
e deste amor
que hoje é vândalo
e que lateja
nesta estrada sem ti
que ficou pra seguir
e sentir esta dor
que ainda é tanta.



Marcos tavares

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ALMAS PERDIDAS, ALMAS SEM FUNDO



Vejo pessoas andando
com suas almas vazias...
assim, tão cheias de nada!
Onde estão os sentimentos?
Onde se encontra a razão?
Estão todos no fundo da alma sem fundo
A alma perdida que caiu no precipício
Pobre dela!
Que não enxerga mais as belezas da vida
Apenas vê a densa e fúnebre escuridão
do fundo da alma sem fundo



Júlia Rezende
https://www.facebook.com/JuNyiDark

domingo, 18 de agosto de 2013

CARTA DE SUICÍDIO DE MAIAKOWISKI


A todos
De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas.
O defunto odiava isso.
Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.
Lilia, ame-me.
Ao governo: minha família são Lilia, Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.
Caso torne a vida delas suportável, obrigado.
Os poemas inacabados entreguem aos Birk, eles saberão o que fazer.
Como dizem:
caso encerrado,
o  barco do amor partiu-se na rotina.
Acertei as contas com a vida
inútil a lista
de dores,
desgraças
e magoas mútuas,
Felicidade para quem fica.


Vladimir Maiakovski


sábado, 17 de agosto de 2013

MENINA INOCENTE



Me coma com preguiça,
lentamente,
explorando meus esconderijos,
sussurrando indecências
delicadamente.

Me coma de repente,
com carência,
abrindo minha blusa,
com as mãos indecisas
acidentalmente.

Me coma com seus dentes,
me arrastando pelos cabelos,
descosturando minhas roupas,
com tapas na cara,
gulosamente

Me coma esfomeado,
com jeito de bandido,
como cafajeste que desfruta,
de uma menina inocente,
impunemente

Me coma como vadia,
com desprezo,
sem medir estragos
sem querer afagos
sem mostrar nos olhos
agradecimento.

Me coma como sua, suado,
se desmanchando no meu ventre,
perdido nos meus olhos
apaixonados,
tontos de paixão
e contentamento 


Marcos tavares