quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS

Eu mesma pedi, esta caixa de madeira
branca e quadrada como uma cadeira, pesada demais.
Diria que é o esquife de um anão
ou de um bebê quadrado
não fosse o rumor que vem de dentro.

Está fechada agora, é perigosa.
Devo zelar por ela a noite inteira
e não posso me afastar.
Não há saída, é impossível ver o que há nela.
Só uma pequena tela, sem janelas.

Espio pela fresta.
Tudo escuro, escuro,
pelo enxame zangado de mãos africanas
miúdas, prensadas para exportação,
negro no negro, escalando com ira.

Soltá-las, quem dera?
O zumbido é o que mais apavora,
as sílabas incompreensíveis,
são como um turba romana,
não são nada sozinhas, mas juntas, meu deus!

Ouço ansiosa esse latim furioso.
Não sou um César.
Só encomendei uma caixa de maníacas.
Posso devolvê-las.
Ou deixá-las morrer, sou a dona, não preciso alimentá-las.

Imagino quanta fome sentem.
Imagino se me esquecessem
se eu abrisse a tampa e recuasse e virasse árvore.
Há um laburno, com suas colunas louras,
e anáguas de cereja.

Podiam de repente me ignorar
em meu véu funerário, em meu vestido lunar.
Não sou fonte de mel.
Por que dão voltas em mim?
Amanhã serei o doce Deus, vou soltá-las enfim.

A caixa é apenas temporária. 


SYLVIA PLATH

(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça) 


domingo, 10 de novembro de 2013

LINGUAGEM

Somos todos
versos de uma poesia.
Alguns com vírgulas demais, 
outros com muitos dois pontos.
Uns que usam tanta exclamação
que vivem até entre aspas.

Alguns não respeitam maiúsculas,
enquanto outros ficam
apenas entre parênteses.
Tantos escrevem apenas de si,
que o texto torna-se enfadonho.

Por ironia da linguagem 
é preciso ter ponto final,
mas tem sempre alguém com reticências
que nos dá vontade de ler
seu próximo capitulo.


Marcos tavares

sábado, 9 de novembro de 2013

ASTRONAUTAS CAINDO AOS PEDAÇOS




Assim são as pessoas, umas sólidas, concretas de aço, outras estranhas, infinitas e abstratas. As pessoas são paisagens, cartão de visita, as pessoas são chamadas não atendidas, as pessoas são gritadas, anunciadas pelo nome sobrenome, as pessoas são palavras esquecidas. As pessoas têm papo, cabeça ombro e membros, sentimentos no anonimato, as pessoas são potências e atos. As pessoas têm coisas, as coisas têm as pessoas, são textos caligrafias cadernos encadernados no segundo, mundo particular em partículas criptografadas, um quarto da metade industrializada condicionada. As pessoas estão na terra, estão no terraço, as pessoas estão no mundo da lua, astronautas caindo aos pedaços.


Claudio Castoriadis   
http://claudiocastoriadis.blogspot.com.br/

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

domingo, 3 de novembro de 2013

SURTO DERRADEIRO


Em minhas mãos dorme esta serpente,
que acorda esfomeada,
entorpecida pelo meu mau hálito
se enfraquecendo a cada  instante

Quando triste se contorce,
amarrada ao poço profundo,
sem abrigos à tempestades,
exposta  à  germes  e escuridão

Ás vezes me implora liberdade,
com um olhar  terno e  infantil,
parece  desconhecer o seu destino:
Me domesticar  com sua  fragilidade.

Posso esmagar a sua cabeça,
num surto derradeiro,
não sentir mais a sua ameaça
num dia de sol qualquer


Marcos tavares 

UMA NOVA FESTA

Durante mais de dezesseis anos estive compartilhando a maioria dos meus momentos com uma grande pessoa. Enfrentamos tantas coisas difíceis e duras nesse tempo, mas juntos com nossas forças conseguimos superar. Tive comigo uma grande guerreira que vai sempre fazer parte da minha história, não há o que julgar, remediar ou acusar a ninguém, somos como todo mundo, humanos feito de carne e osso, onde um coração bate e decide coisas imprevisíveis.
Erramos muitas vezes um com o outro, mas aprendemos a nos perdoar.
Ainda sabíamos rir um do outro, dormir abraçados e andar de mãos dadas.
Mas a vida, que é selvagem e dinâmica pede que não mais caminhemos juntos.
Não conhecemos o que a vida nos reserva, nem os planos que serão traçados para cada um, mas viver é um eterno vir a ser, temos que deixar o novo entrar, pois se o impedirmos ele rasga a nossa alma, sem se importar com o que se sente ou ao que se está apegado.
É importante sabermos limpar os cantos da sala e tirar o lodo que vai ficando ali, o mesmo se deve fazer com o coração da gente, as vezes. Sutilmente dar-lhe novos ares ou novas pessoas que ali saibam ficar por algum tempo.
Todos nós estamos vivendo em mundo descartável de coisas que se sucedem constantemente, as relações das pessoas também estão assim. Não são as pessoas que perderam o compromisso de manter de pé suas juras de amor ou seus sonhos, é só o mundo querendo que você troque de roupa para uma nova festa.
Tenho certeza que será impossível não chorar, não sentir saudades e as vezes até encher um pouco a cara, mas, a maior das certezas é que não deixaremos morrer nossa história e aquilo que dói agora, um dia não mais doerá. Todos estes sentimentos confusos que vem fazer alvoroço, rasgando a alma e nos tirando o chão, um dia estarão assentados e serão apenas um grande e enorme carinho.

Vai com Deus, Patty !

Marcos tavares