terça-feira, 18 de setembro de 2012

ANATOMIA



É um choro entre o ente,
Entre a vida e a enchente
dos olhos.
...Ah! Tanta dor.

É um berro,
Pelos poros
Entre a vida e o ventre:
A expansão

Ah! Meu filho.
Quanto espaço houver:
-Fertilizar.
Quantas dores existir:
-Te gerar.

É uma tempestade;
No âmago do existir.
Mas, que teus olhos
E teu choro
Seja a única canção
Deste grito.

Marcos tavares de souza

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O LADRÃO



Quando deixei Maceió, fechei a porta do mar
E enxotei os navios que insistiam em seguir-me.
Tive de aninhar o vento nos corredores
Das casas brancas que guardam lacraias.
Mas o mar me acompanhou até nos sonhos,
Igual ao sol azul que sustenta o mormaço.
O vento veio voando e era um bando de pássaros.
A chuva da minha infância continua caindo
Com o seu séquito de tanajuras e caranguejos.
Até as dunas caminham ao meu encontro
E me rodeiam, exigindo que eu devolva
A chave de areia e o oceano roubado.


Ledo Ivo





sexta-feira, 14 de setembro de 2012

CANTIGA

Os homens são pedras,
metamorfoses de rastros.

Os homens são peles,
itinerários de átimos.

Os homens são muitos,
performance de íntimos.

É preciso aprender as danças,
o samba da nuvem
a valsa da fuga.

Quem sabe o nome do tempo
sabe da chuva o retorno
e sabe da morte o termo.

Quem sabe do trem sabe
da brisa, sabe do homem
a pedra, o lastro, o norte.



Camilo mota



    quinta-feira, 13 de setembro de 2012

    LUA


    Quando eu nasci a minha mãe morria
    com uma santidade de alma em pena.
    Seu corpo era translúcido.
    Ela tinha sob sua carne
    um luminar de estrelas.
    Morreu. Mas eu nasci.
                                      
    Por isso levo
    um invisível rio em minhas veias,
    um invencível canto de crepúsculo
    que me estimula o riso e me congela.
    Ela ajuntou á vida que nascia
    o estéril ramalhar de vida enferma.
    A palidez das mãos de moribunda
    amarelou em mim a lua cheia.

    Por isso, irmão,
    está tão triste o campo
    atrás dessas
    vidraças transparentes...
    ... Esta lua amarela em minha vida
    faz com que eu seja um germinar da morte...

    Pablo Neruda



    domingo, 9 de setembro de 2012

    INFÂNCIA


    Eu, menino, perdido do que hoje sou

    acordava cedo para roubar a aurora

    e ir correndo mostrá-la aos amigos.


    Minha mãe preparava o café

    de encher a manhã inteira,


    meu pai ordenhava o dia

    no amanhecer do curral 


    e uma felicidade de sol na varanda

    Atravessava a vida da gente.



    Inácio Oliveira
    Poeta Paraense.


    quinta-feira, 6 de setembro de 2012

    SUPLICA

    tenho dois olhos
    [mudos ]
    que se recusam
    a ver o óbvio

    uma boca
    [cega]
    que se nega
    a dizer adeus

    um coração
    que pensa
    uma cabeça
    que pulsa

    e estas mãos
    [descalças]
    ajoelhadas
    a teus pés


    Valéria Tarelho


    quarta-feira, 29 de agosto de 2012

    CONVALESÇO

    convalesço
    dos males que me infligi
    das noites que não dormi
    mulheres que em vão amei

    convalesço
    da vertigem que fiz de mim
    do cavalo que quis meu fim
    vida que desesperei

    restabeleço contato
    com tudo que quis pra mim
    com o tanto que um dia eu fui
    com o tal que desaprendi

    restabeleço contudo
    com tato tempo e afeto
    com nada chamado pressa
    nem nunca de outra de horror

    com calma amanheço
    da delirante noite do ópio
    da nebulosa treva tenebrosa
    do uivo lancinante do demente

    amanheço
    com a boca seca da miséria
    com o lábio rachado do pavor
    com o cinzeiro entupido de visões 
    amanheço com calma


    CHACAL