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terça-feira, 5 de julho de 2016

MUDANÇA DAS ESTAÇÕES

Me encantei pelo vento, 
vivo de redemoinhos.              
Os meus segredos conto as aves
na mudança das estações.
Vivo sem testemunhas,
como os cantos das paredes,
como livros na estante, 
quadros de fotografia...

Acordo nas manhãs 
junto com memórias,
imagens de um passado 
que se juntam a mim,
personagens de espelhos 
que ousei inventar,
amores amanhecidos, 
palavras que jurei esquecer...

Quero tantas coisas
e tenho coisas que quero perder.
A vida vai decidir se a lucidez vai me levar.
Tenho á tarde pra sorrir,
quem sabe até! Me perder.
Preciso apenas de um grito
que me rasgue.

Queria uma canção pra assobiar,
uma paixão que me arrastasse,
um desafio qualquer,
que fizesse remendos em mim.
Queria teus braços
que me sustentaram quando enfraqueci,
quando o vento me chamou pra partir. 



Marcos tavares


foto da amiga Gabriela Chagas
https://www.facebook.com/gabichagasb


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

LUA


Quando eu nasci a minha mãe morria
com uma santidade de alma em pena.
Seu corpo era translúcido.
Ela tinha sob sua carne
um luminar de estrelas.
Morreu. Mas eu nasci.
                                  
Por isso levo
um invisível rio em minhas veias,
um invencível canto de crepúsculo
que me estimula o riso e me congela.
Ela ajuntou á vida que nascia
o estéril ramalhar de vida enferma.
A palidez das mãos de moribunda
amarelou em mim a lua cheia.

Por isso, irmão,
está tão triste o campo
atrás dessas
vidraças transparentes...
... Esta lua amarela em minha vida
faz com que eu seja um germinar da morte...

Pablo Neruda



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são ridículas


POUSA

                              Fernando Pessoa






ANTES DE AMAR-TE AMOR


Fernando pessoa



                                



   

Eugênio de Andrade



                         
Já gastamos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastamos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastamos as mãos à força de as apertarmos,
gastamos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.


Augusto dos Anjos

Versos Intimos


Armando Freitas Filho


Numeral


Antonio Carlos Secchin


Estou Ali


Ana Cristina Cesar


Sem título


Adélia Prado

O amor no éter



Adélia Prado


Ensinamento